Cachaça é coisa de mulher… empreendedora – Márcia Peltier

A bebida brasileiríssima vem ganhando status e refinamento. Tem mão feminina na produção!

Aquela branquinha engarrafada é conhecida no Brasil por muitos nomes – pinga, aguardente, caninha, parati, uca, bagaceira, teimosa, tira-teima, januária, a que matou o guarda, água que passarinho não bebe. A cachaça, destilado de cana extraído por fermentação e destilação, das borras do melaço da cana-de-açúcar, já virou um dos símbolos da cultura nacional e ganhou o mundo em embalagens muito chiques. Em 2014, foram quase 19 milhões de dólares em exportação de cachaça. Salve a caipirinha!

Se a tradição da bebida já se alinhou à figura quase caricata do cabra macho– e nunca da moça direita, diriam nossos avós -, a realidade é que a cachaça, pura ou nos drinques mais conhecidos como a caipirinha, está no cotidiano dos brasileiros, homens e mulheres. Dentre os produtores, destacam-se especialistas que produzem algumas das melhores aguardentes no país. E ai de quem disser para elas que mulher não gosta de pinga.

Maria Izabel no seu alambique e Maria do Carmo - da cachaça Magnífica - num evento / Fotos de divulgação

Maria Izabel no seu alambique e Maria do Carmo – da cachaça Magnífica – num evento / Fotos de divulgação

A Magnífica reitora virou cachaça da boa…

Foi há 30 anos que Maria do Carmo Faria, a Cau, incorporou a cachaça em sua vida profissional. O marido dela, João Luiz de Faria, se aventurou na produção com um pequeno alambique, coisa caseira, com os amigos. Era o início da trajetória de uma das aguardentes mais respeitadas do Brasil, a Magnífica. Orgulho e muitas horas de dedicação à nova ocupação da família.

– Eu tinha contato com cachaça desde criança, quando minha mãe preparava aos domingos uma batidinha de limão com mel.

Lá atrás, em 1985, eles compraram a Fazenda do Anil, em Miguel Pereira, região serrana do Rio de Janeiro. E passaram a vender a bebida na porta da fazenda, onde ficavam toneis. E Cau teve a ideia de divulgar a cachaça em um pequeno restaurante da família na serra.

– Comprei duas garrafas antigas e bem bonitas numa feira de antiguidades. Não me conformava de uma bebida como aquela não ter uma embalagem à altura. Servia como cortesia da casa.

Numa viagem para a Escócia, João Luiz descobriu como funcionava a indústria do uísque e mudou o rumo dos negócios. O movimento em torno do pequeno alambique de Miguel Pereira se tornou pioneiro para a valorização da cachaça no país. E surgiu oficialmente a marca Magnifica.

– O nome foi em minha homenagem. Na época eu era reitora da Universidade Santa Úrsula, e “magnífica” é o adjetivo oficialmente associado ao cargo.

A marca cresceu e os filhos entraram no negócio. Hoje, a Magnífica é feita em família.

– Trabalhei por quarenta anos na universidade como professora e reitora. A parte de organização e burocracia acabou sendo a minha função. Mas confesso que gosto mesmo é de inventar novas batidas e receber os convidados na fazenda.

…e Maria Izabel virou cult.

Uma menina que corria descalça pelas ruas de Paraty, descendente de produtores de cachaça que remontam aos anos 1700, se transformou numa produtora da bebida – com a marca que virou cult. Maria Izabel, começou sua produção por conta própria. Nascida na cidade histórica fluminense, virou substantivo comum: “Vamos tomar uma Maria Izabel?” é um convite para provar a cachaça queridinha da região. Nos bares do centro da cidade, leem-se placas “Temos Caipirinha de Maria Izabel“. A maioria dos escritores recém chegado na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) se rende aos sabores de sua pinga.

O alambique surgiu em 1997, quando ela decidiu investir no sítio onde morava, lugar paradisíaco entre o mar e a montanha uma casa antiga, sem energia elétrica nem estrada.

– Ia e voltava do sítio a cavalo ou de barco. Mas já tinha um pequeno canavial. Plantava cana sozinha e montei um sistema onde tudo funcionava sem eletricidade. Usava a gravidade e um motor a diesel para moer a cana. Funciona assim até hoje.

A família tem tradição no alambique. Já no século XVII, parentes seus produziam pinga em Paraty. Houve uma lacuna dolorida. O pai de Maria Izabel morreu cedo e não chegou a transmitir a técnica. Mas Maria Izabel tem o seu jeito de fazer cachaça e não pretende mudar.

– Minha produção é bem pequena, mas eu gosto assim. Só uso a cana da minha fazenda e por isso ela está sempre fresca. A cachaça é de melhor qualidade: forte, tão bem feita que fica suave.

Entre um mergulho no mar e um cochilo na rede, Maria Izabel participa de todas as etapas da preparação da aguardente: planta e colhe, mói a cana, destila, engarrafa e ainda rotula o produto final.  O rótulo foi presente de Liz Calder, a responsável pela concepção da Festa Literária – Liz contratou um designer e ofereceu à Izabel.

– No início foi complicado, ninguém comprava minha cachaça. Diziam que era fraca, que era cachaça de mulher. E era uma das mais fortes da região. Nunca me importei. Desde criança, eu nunca fiz o que se esperava de uma menina de família. E continuo não fazendo.

 

Por Marina Lemos Gonzaga

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