A última das moicanas – Estado de São Paulo

Sozinha, num sítio à beira-mar em Paraty, Maria Izabel mantém viva a antiga tradição familiar de fazer pinga artesanalmente

De um jeito ou de outro, um curioso à solta em Paraty chegará até Maria Izabel. Nos melhores bares e restaurantes, o garçom costuma inflar o peito ao anunciar “nossa caipirinha é feita com a cachaça Maria Izabel”. Na pousada mais elegante da cidade, a Casa Turquesa, os hóspedes ganham de brinde uma miniatura da bebida. Se, mesmo assim, a Maria Izabel não te pegar, ela chamará sua atenção nas prateleiras dos armazéns no Centro Histórico. Que cachaça local é essa com nome de mulher, rótulo de grafismo sofisticado como o de um livro de Scott Fitzgerald e preço de scotch?

A cachaça mais cult de Paraty, cidade que é o berço da cachaça no Brasil e virou santuário de intelectuais por sediar a feira literária Flip, é feita por uma mulher, sozinha, que é a menor produtora local – são cerca de 7.500 litros/ano, obtidos exclusivamente da cana plantada em três hectares do próprio terreno.

A Maria Izabel do rótulo existe, é Maria Izabel Gibrail Costa, cidadã paratiense de 61 anos. É ela quem cuida de todas as etapas da bebida que produz há seis anos – da plantação da cana ao engarrafamento, incluindo a destilação. Para tanto, cana, alambique e a casa onde Maria Izabel mora ficam no mesmo lugar, com distâncias medidas em passos, no sítio Santo Antônio.

O sítio está em uma encosta de frente para o mar. Em encostas costuma haver uma considerável variação de temperatura no verão (quente e chuvoso) e no inverno (frio e seco), então a tendência é que a cana dali concentre mais açúcar. Por outro lado, a vizinhança do mar aumenta a presença de salinidade – que, a grosso modo, é o que caracteriza o “terroir” de Paraty, dando à região personalidade suficiente para competir com as cachaças de Minas Gerais. Não bastassem os atributos naturais, o sítio tem enredo de Letícia Wierzchowski: é a casa de sete mulheres. Maria Izabel e suas seis filhas, Izabel, Maria, Mabel, Mariza, Maira e Maia.

Na cidade todos sabem quem é Maria Izabel, mas pouco se sabe sobre ela. Diz-se que a poderosa editora inglesa Liz Calder, a criadora da Flip (que descobriu Harry Potter), só toma cachaça Maria Izabel – foi ela, aliás, quem encomendou do amigo Jeff Fisher o rótulo, presenteando sua alambiqueira protegida. Um dos maiores especialistas do País no assunto, Erwin Weimann, muda o tom de voz ao falar dela :“A Maria Izabel é uma guerreira e faz uma cachaça de respeito”.

Mas Maria Izabel não é uma mulher que gosta de curtir a fama. Vive recolhida. Dá a impressão de que as únicas notícias que recebe “de fora” vêm pelas filhas, mulheres bonitas e bem articuladas, envolvidas na organização da feira literária de Paraty. “Ela só anda descalça”, diz o amigo Ismaelzinho, dono de um restaurante em cima de uma árvore a poucos quilômetros do sítio.

Sentada à mesinha de madeira onde realiza degustações em seu alambique, cabelos molhados de quem acabou de tomar um banho de mar, Maria Izabel conta sua história. “Digo que eu sou a última das moicanas”, começa, referindo-se ao fato de manter viva a tradição de fazer cachaça pessoal e artesanalmente. Registros confirmam que seu trisavô paterno, Francisco Lopes da Costa, produzia cachaça em 1800. Mas ela aprendeu tudo na prática. Depois de trabalhar com arquitetura, organizar passeios turísticos em uma baleeira (ela não fica sem um barco), vender pães feitos por ela mesma…

“Vocês deveriam ter ligado, poderiam ter me encontrado andando pelada”, advertiu ela. Portanto, o leitor curioso chegará, sim, até Maria Izabel, mas, já sabe – é melhor que avise.

 

 

 

Nana Tucci/Especial para o ‘Estado’/Paraty, 07 Março 2012 | 19h36

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